terça-feira, 15 de maio de 2012

Estudo Parábola dos talentos - Leitura e reflexão
 Maria Ofelia Tupan
 INTRODUÇÃ0
Apresento uma leitura da Parábola dos Talentos, sem pretender, aqui, discutir nenhuma das bases teológicas doutrinarias. Os leitores estão convidados a participar da construção do perfil de cada personagem, vivenciando cada situação e reagindo a ela, sendo simplesmente humanos. Após ter lido muitas interpretações teológicas de diversas doutrinas da Parábola dos Talentos, percebi que alguns versículos são ignorados. Fui criando mentalmente as cenas dessa parábola, dando a cada personagem um papel social, com responsabilidades e caráter, observando as entrelinhas do texto, deduzindo seus aspectos psicológicos, envolvendo-os como cidadãos em uma determinada época histórica, atribuindo-lhes, pensamentos internos, indignação e ações decorrentes dos fatos textuais. 


O TEXTO (Evangelho de Mateus cap. 25 vers. 14-29)
 14- Pois será como um homem que, ausentando-se do país, chamou os seus servos e lhes confiou os seus bens. 15- A um deu cinco talentos, a outro, dois e a outro um, cada um segundo a sua própria capacidade; e, então, partiu. 16- O que recebera cinco talentos saiu imediatamente a negociar com eles e ganhou outros cinco. 17- do mesmo modo, o que recebera dois ganhou outros dois. 18- Mas o que recebera um , saindo, abriu uma cova e escondeu o dinheiro do seu senhor. 19- Depois de muito tempo voltou o senhor daqueles servos e ajustou contas com eles, 20- Então, aproximando-se o que recebera cinco talentos, entregou outros cinco, dizendo: Senhor confiou-me cinco talentos; eis aqui outros cinco talentos que ganhei. 21- Disse-lhe o Senhor: Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu Senhor. 22- E, aproximando-se também o que recebera dois talentos; disse: Senhor, dois talentos me confiaste; aqui tens outros dois que ganhei. 23- Disse-lhe o Senhor: Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu Senhor. 24- Chegando, por fim, o que recebera um talento, disse: Senhor, sabendo que é homem severo, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste, 25-receoso escondi na terra o teu talento; aqui o que é teu. 26-Respondeu-lhe, porém, o senhor: Servo mau e negligente sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde espalhei? 27- Cumpria, portanto, que entregasses o meu dinheiro aos banqueiros; e eu, ao voltar, receberia com juros o que é meu. 28- Tirai-lhe, pois, o talento e daí-o ao que tem dez. 29- Porque a todo o que tem se lhe dará, e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. 30- E o servo inútil, lançai-o para fora, nas trevas. Ali haverá choro e ranger de dentes. O valor do talento O talento é o nome de uma moeda usada na época de Jesus Cristo, para representar altos valores. Algumas fontes de pesquisa informam que um talento era igual a 6000 denários. O denário correspondia ao salário de um jornaleiro, equivalente a 8,4 gramas de ouro ou prata. Um talento corresponderia a aproximadamente 50 quilos de ouro ou prata, ou seja, 50.000 gramas de qualquer um desses metais. Torna-se necessário fazer alguns cálculos para ter uma estimativa de qual seria o valor de um talento em moeda atual. Podemos então usar o valor pago a um trabalhador diarista, ou fazer a correspondência com os valores atuais do grama de ouro ou de prata. Dividindo-se 50.000 gramas de ouro ou prata (um talento) por 8,4 gramas desses metais, o qual corresponde ao valor do salário de um dia (um denário), temos como resultado 5952,38 dias. Isso significa que um jornaleiro precisaria trabalhar esse número de dias para acumular essa quantia. Dividimos o resultado obtido por 365 dias, descobrimos que um trabalhador daquela época levaria, aproximadamente, 16 anos para ganhar um talento. Assim podemos concluir que para dois talentos seriam necessários 32 anos de trabalho, para cinco talentos - 80 anos; 10 talentos - 160 anos... Vamos fazer as contas. Uma diarista ganha no mínimo hoje R$50,00, porém não consegue trabalhar todos os dias, mas vamos supor que trabalhe sem tirar nem um dia de descanso e não gaste absolutamente nenhum centavo, em um ano, essas diaristas teriam acumulado cerca de R$ 18.250,00 e em 16 anos o total seria de R$ 292.000,00, o que seria aproximadamente o valor de um talento nos dias atuais. Porém poderíamos fazer esses cálculos baseados no preço do ouro ou da prata. No caso do ouro o preço atual é de R$ 75,00 o grama, um denário seria igual a 8,4 gramas que seria igual a R$630,00 por um dia, em um ano R$229.950,00 e em 16 anos R$3.679.200,00. Agora você pode escolher como calcular o valor atual de um talento. Podemos concluir que ao contrario do que sempre pensamos, um talento corresponde a aproximadamente dezesseis anos de trabalho como diarista, esta longe se ser uma quantia desprezível, a qual enterraríamos sem obter nenhum ganho.  

O Senhor
 “14- Pois será como um homem que, ausentando-se do país, chamou os seus servos e lhes confiou os seus bens. Quem é esse homem? Quais os aspectos de sua personalidade? Como administrava seus bens? Ele delegava funções? Todos os seus bens se restringiam aos oito talentos distribuídos? Quantos servos foram os chamados? Quais critérios foram utilizados para selecionar aqueles três servos? Ou confiou seus bens a todos seus servos e somente três foram mencionados no texto? Esse homem integrado em seu momento histórico possuía alguns bens, os quais poderiam ser representados por extensões de terras, gado, produção agrícola, etc. Consequentemente tinha inúmeras responsabilidades, como a administração, manutenção e expansão de seu patrimônio; e o comando de um grande número de servos, domésticos e jornaleiros. Portanto seria impossível ter somente três servos. Grande parte do trabalho nessa época era na agricultura e pecuária. Em função dessas atividades havia a manufatura de alguns produtos, como a produção de farinhas, devido à colheita de cevada, trigo, milho, a produção de azeite, vinho e conservação de carnes, a confecção de tecidos, feitos a partir do linho e da tosquia das ovelhas, armazenamento de cereais, transporte da produção para os portos, feitos em lombo de animais, em caravanas, comercialização, e outros afazeres, aumentando as responsabilidades e incumbências administrativas, pois quem negocia, não lida apenas com ganhos, é preciso saber administrar também prejuízos. Podemos deduzir que esse homem, até aquele momento, não havia delegado funções administrativas, tendo assumido integralmente a administração dos seus bens. Quais seriam os possíveis motivos da centralização da administração? Nós sabemos que existem pessoas centralizadoras, as quais acreditam que sem elas, tudo vai por água abaixo, porém o momento de ausentar-se sempre acontece. O fato que criou a necessidade de ausentar-se, não é especificado, mas podemos fazer várias indagações sobre os motivos que o levariam a sair de seu país: Expandir fronteiras de comércio, adquirir novas propriedades, resolver problemas políticos. Seja qual for o motivo, o texto deixa claro, que em função de suas responsabilidades, deveria ausentar-se do país. Precisou então garantir que a administração de seu patrimônio continuasse de forma satisfatória. Uma nova tarefa está em suas mãos, a de escolher entre os seus servos, indivíduos com capacidade administrativa para gerenciar os seus negócios, até que regressasse. Este homem precisaria estabelecer quais seriam os critérios que precisaria utilizar para escolher pessoas para um cargo de confiança. Provavelmente, primeiro pensou nas pessoas com as quais já desenvolvera certa afinidade e relativo grau de confiança, sobre as quais acredita conhecer o potencial de trabalho, o nível de assertividade nas decisões e o caráter. Todo esse processo, mesmo quando ocorre apenas mentalmente, demanda energia e tempo. Elabora então um rol de qualificações, a qual deve utilizar para avaliar os possíveis candidatos. Entre os servos desse senhor, três foram escolhidos, logicamente, por preencher os requisitos por ele estabelecidos. A próxima tarefa seria determinar, em função do potencial de trabalho, da capacidade administrativa e da assertividade ao tomar decisões, as quais foram presumidamente demonstradas por eles ao serem avaliados, o quanto em cifras caberia a cada um, ou seja, o grau de confiança que seria depositado em cada um desses servos. O texto diz que ele chamou seus servos e lhes confiou seus bens. Não ficou claro se ele distribuiu seus bens entre todos os seus servos No caso de todos os servos terem sido considerados dignos de alguma responsabilidade/confiança, o resultado obtido pelos servos foi excelente, pois apenas um demonstra ter problemas em relação ao trabalho que lhe foi designado. Porém se somente três foram escolhidos, significa que todos os outros não preenchiam os requisitos e foram excluídos. Se assim aconteceu, reforça a ideia de administração centralizadora, portanto os servos escolhidos, não tiveram a oportunidade de convívio mais próximo com esse senhor, nem a chance de aprender a administrar, eles aplicaram à prática o conhecimento empírico. Eles não sabiam o que e como fazer, ficando apenas na intuição e não no conhecimento administrativo adquirido com a convivência. É preciso lembrar que até Moises, em pleno deserto, aproximadamente mil e seiscentos anos antes de Cristo, já descentralizava a administração do povo e formou seu sucessor, trazendo-o para próximo, fazendo com que partilhasse do seu cotidiano, assim Josué foi adquirindo conhecimentos e habilidades para ser líder em lugar de Moisés. Josué fazia parte de uma equipe numerosa que auxiliava Moises nas decisões e no governo do povo. Por sua vez Josué também formou uma equipe, com pessoas de sua confiança. “Mas escolherás do meio do povo homens prudentes, tementes a Deus, íntegros, desinteressados, e os porás à frente do povo, como chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinquenta e chefes de dezenas. 22. Eles julgarão o povo todo o tempo. Levarão a ti as causas importantes, mas resolverão por si mesmos as causas de menor importância. Assim aliviarão a tua carga, levando-a consigo.” Livro de Êxodo cap. 18 vers. 21 e 22. Diante do exposto, é imprescindível decidir de que forma esses bens foram distribuídos para serem administrados, se todos os servos receberam parte do patrimônio, o resultado obtido no regresso desse Senhor, pode ser considerado um sucesso, pois apenas um não cumpriu a missão para qual fora designado, ou se só três foram os escolhidos, então podemos afirmar que o nível de exclusão dos servos durante a escolha foi enorme, pois somente três foram selecionados e apenas dois apresentaram resultados positivos, um deles foi um fracasso. Resultado duplamente negativo, para quem fez a seleção e para quem tinha uma missão a cumprir com metas a atingir.  

 Dois servos
 “16 - O que recebera cinco talentos saiu imediatamente a negociar com eles e ganhou outros cinco”. “17 - do mesmo modo, o que recebera dois ganhou outros dois.” Estes dois personagens possuem características semelhantes quanto ao caráter, ao desprendimento e as possibilidades de agirem frente a situações desafiadoras. Tente enquadrá-los em situações similares, nos dias de hoje. Você concorda que são homens de decisão, capazes de assumirem seus erros e acertos. Precisamos lembrar que cada talento correspondia cinquenta quilos de ouro. Portanto o primeiro servo tinha nas mãos duzentos e cinquenta quilos de ouro, o segundo, cem quilos. Lembre-se que não houve período de orientação para que soubessem como administrar essas quantias. Num estalar de dedos deixaram de ser servos para serem senhores com uma grande quantidade de recursos e o mais importante eles iriam administrar para o enriquecimento de outro, não deles próprios. Receberam apenas o poder de administrar e não de usufruir dos bens recebidos ou obtidos a partir deles. Isso prova que foram movidos por desprendimento, ousadia, e uma grande a capacidade de se assumir os riscos em prol de outrem. Também é preciso entender que na época em que essa parábola foi relatada, o talento significava somente “dinheiro”, cada moeda valia exatamente o que pesava no metal que era confeccionada, o significado atual ocorreu séculos mais tarde, podemos inferir que os discípulos de Jesus deveriam entender esse texto dentro do contexto histórico e não com as interpretações atribuídas atualmente. Os dois servos possuem qualidades semelhantes, pois ambos foram capazes de dobrar o capital inicial recebido de seu senhor e quando o senhor quando este veio pedir a prestação de contas entregaram tudo sem reter nada para si mesmos, por isso foram recompensados.

  
O Terceiro servo

 Precisamos questionar qual motivo leva o senhor a destinar uma quantia menor a este servo. O texto explica que cada um recebeu de acordo com sua capacidade, talvez a única explicação seja essa, a sua capacidade - versículo 15- A um deu cinco talentos, a outro, dois e a outro um, cada um segundo a sua própria capacidade; e, então, partiu. A partir dessa afirmação podemos entender que desde o princípio este servo já havia demonstrado algum problema para assumir tanta responsabilidade, contudo foi lhe dado uma oportunidade, porém sua maneira de agir o condena ao desastre total. Vejamos como se coloca diante do senhor na hora da prestação de contas “Senhor, sabendo que és homem severo, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste", "25-receoso, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu.”. Os sentimentos e as acusações por traz desta colocação, “homem severo, que ceifas onde não semeaste ajuntas onde não espalhaste”, afinal que ato é esse de ceifar(colher) onde não se plantou? Ou o ato de ajuntar onde não se espalhou? São palavras muito arrogantes e presunçosas, feitas por alguém que se declara temeroso a ponto de enterrar uma quantia equivalente a dezesseis anos de trabalho , ou cinquenta quilos de ouro em moeda corrente. Será que ele é esse ser humilde, receoso que declara ser? Leia este trecho “- 25-receoso, escondi na terra o teu talento; tens aqui o que é teu”. Depois de tais afirmações, não lhe restava muito para que ficasse ele receoso . O fato de assim se declarar e dizer que enterrou o que recebeu torna-se uma desculpa esfarrapada, pois suas falas mostram bem seu tipo de caráter, fica impossível a alguém com tanta eloquência declarar-se medroso , pois suas falas mostram exatamente ao contrários e depois de analisar esses dois versículos, torna-se claro que com essa quantia nas mãos tirou vantagem da situação lesando o senhor, praticando assim, exatamente as ações das quais acusava ao senhor.

 A resposta do Senhor aos dois servos bem sucedidos

 21- Disse-lhe o Senhor : Muito bem, servo bom e fiel ; foste fiel no pouco , sobre o muito te colocarei ; entra no gozo do teu Senhor . A mesma resposta foi dada a estes dois servos, pois eles dobraram o capital inicial,demonstraram altruismo , foram honestos na administração e na prestação de conta quanto aos lucros obtidos .mas existem alguns pontos a serem considerados : primeiro “foste fiel no pouco” , para o senhor aquelas quantias eram consideradas pequenas , então o fato de ter depositado na mão de cada um deles aquelas quantias era apenas um teste ao seu caráter e às suas capacidades; segundo - “ sobre o muito te colocarei” significa que ambos receberiam incumbências ainda maiores, já que haviam sido aprovados ; terceiro “entra no gozo do teu senhor” ou seja a partir daquele momento desfrutariam de uma convivência mais próxima , o que era resultado da confiança conquistada por eles.

 A resposta do senhor para o terceiro servo

 26-Respondeu-lhe, porém, o senhor : Servo mau e negligente, sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde espalhei ? 27- Cumpria, portanto, que entregasses o meu dinheiro aos banqueiros; e eu, ao voltar, receberia com juros o que é meu. 28- Tirai-lhe, pois, o talento e daí-o ao que tem dez. 29- Porque a todo o que tem se lhe dará, e terá em abundância ; mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. 30- E o servo inútil, lançai-o para fora, nas trevas. Ali haverá choro e ranger de dentes. As palavras do senhor , no versículo 26 expressam uma verdade,esse servo é mau e negligente , essas palavras parecem elogios quando comparadas ao que foi dito anteriormente pelo servo ao referir-se as atitudes do senhor, justificando o porque tirar dele aqueles talentos e entregar ao que já possuía dez, pois este sim havia demonstrado ser digno de confiança. Embora as atitudes do senhor nos versículos seguintes pareçam muito rigorosas , tornan-se efeitos da atitude anterior servo. “Ao que tem mais lhe será dado”, essa frase refere-se aos que tem responsabilidade, compromisso, consciência e outras qualidades inerentes ao caráter, os quais receberão maiores responsabilidades por se mostrarem aptos para isso. “... e ao que não tem o pouco que tem lhe será tirado”. O personagem em questão não foi digno da confiança nele depositada, demonstrou incapacidade para assumir seus erros.

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